Agora é fashion comer saudável

Longe de mim estar a ser hater. Não pretendo fomentar e apoiar um hábito de alimentação menos saudável, apesar de levar isso quase como uma regra, tendo em conta os meus registos glicémicos. Mas isto dos pratos coloridos, fotografias de saladas que nem necessitam de muita edição e aqueles detox verduscos no snapchat, tem muita piada. Como de uma peça de roupa se tratasse, como aquela recente febre do casaco amarelo.

As redes sociais são o palco principal para a dança das diferentes sementes. Linhaça, aveia e a chia são as artistas principais. Os tempos em que a fruta cortada sentia-se só num prato, já foram. Agora, todos os flocos integrais estão lá para enfeitar.

As propagandas aliciam as nossas vontades e, na falta de uma imagem artística, a comida saudável está sempre lá para animar o nosso perfil. A fast-food ficou bem lá atrás, em 2009. Ir ao McDonald’s já é banal e só de olharmos sentimos a gordura a entrar-nos no corpo… Meu Deus, que obsceno, que demodê.

Ir ao ginásio nunca soube tão bem. Com uma boa legging e as sapatilhas “de desporto”, nunca vamos cair fora do baralho. Eis que chegamos ao topo da pirâmide das pessoas fixes e da moda. Se não temos o entusiasmo necessário, são várias as celebridades ao nosso redor que nos inspiram para isso. E contra mim falo, que me deparo em alguns momentos em frente ao ecrã a ouvir meia dúzia de mestres a falar sobre os benefícios do óleo de côco. “Substitui o açúcar no café, útil para grelhar carne e uma máscara espetacular p’ro cabelo”, nem a feirante antes tivera tanto poder de persuasão.

Isto não é uma crítica negativa ao fitness, antes pelo contrário, considero que esta é uma prática que acaba por nos incentivar a largar os maus hábitos alimentares. Porque realmente não é preciso passar fome para se comer saudavelmente. Pensemos positivo: o caminho não foi o melhor, mas pelo menos o resultado acaba por ser bom.

Alerta trendyJá existe um McDonald’s saudável. O pasmo. A surpresa. O êxtase. Com esta epidemia, uma nova técnica atraente tinha de surgir. “2015 não foi o melhor ano para a maior cadeia de fast-food do mundo. O número de clientes desceu consideravelmente e com ele o volume de negócio. Esta queda está, provavelmente, associada ao aumento da preocupação alimentar das pessoas, que procuram cada vez mais opções de comida saudável”. O McDonald’s Next é um novo restaurante, inaugurado em Hong Kong, com 19 ingredientes daqueles xpto, quinoa incluída.

Resta aos tugas esperar para que esta novidade chegue “ao país ao lado de Espanha”.

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1/4 do estudante

Escola. Amigos. Festas. O quarto.

Dizem que os olhos são o espelho da alma. E o quarto? Cada quarto reflete uma pessoa, e o quarto de um estudante, guarda segredos. Segredos de dias a estudar, metades de noites dormidas ou de fins de semana demasiado ocupados para poder ir a casa. Quartos pequenos, grandes, partilhados e arrumados, ou com a roupa da semana amontoada numa simples cadeira.

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Hora de acordar. As persianas são ligeiramente levantadas, ou a luz fraca do candeeiro serve para procurar o que vestir. O silêncio em cada passo, e o abrir de porta lento. Tudo para não acordar o colega com quem divide o mesmo quarto. Mais barato, foi o que se encontrou, ou simplesmente porque é alguém chegado: dividir quarto é contar as mesmas histórias, é saber lidar com a falta de privacidade ou solidão, é saber usar o silêncio como forma de respeito. É andar de lanterna na mão.

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Marcas, autocolantes ou paredes pintadas denunciam que aquele já foi o quarto de alguém. Aquele que agora pertence a uma pessoa, mesmo que não por muito tempo, já pertenceu a tantos outros, certamente. Fotos, frases ou lembranças coladas nas paredes é o que o torna característico de alguém. As marcas denunciam memórias e pessoas que não queremos esquer. Torna-o  mais acolhedor e com sabor a “casa”.

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Diferentes formas de estudo permanecem nas secretárias, camas ou mesas de quem troca o “estudar com os amigos” pelo estudar sozinho. Inteligentes são esses que sabem que o “estudar com os amigos” nunca significa claramente isso. A euforia da vida académica acaba com a chegada das frequências e trabalhos. O conforto da cadeira do café é trocado pela necessidade de concretização.

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Aqueles que chegam com o quarto como o receberam, têm quase como uma espécie de cartão de parabéns. Vamos embora e decidimos deixar o nosso rasto. Não temos cuidado e as coisas não nos pertencem. Estragos entre estragos, um estudante aprende acima de tudo a desenrascar-se. Aprendemos a pedir um pacote de arroz a um colega de outro curso, que mora em baixo. Percebemos que se com paus fazemos uma canoa, certamente com um colchão fazemos uma cama.

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Acordar e não lembrar da noite passada: um clássico. Não julgamos o Manel nem a Maria porque amanhã podemos ser nós. Dizem que é nesta idade que assim o deve ser. Caloiros, aprendem com os mais velhos. Os mais velhos, revêem-se nos caloiros. A euforia académica é imensa e tão peculiar. No meio de todas as matérias leccionadas, o maior leque que levamos é adquirido fora da sala de aula.

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As aulas enchem-nos os dias. Os cafés, as noites. As festas, as madrugadas. O refúgio é sempre o mesmo. O quarto que tomamos como nosso. Voltamos para a nossa terra natal, ansiosos por voltar à nossa cama principal. Mal sabemos que o que vai deixar saudade são os rascunhos nas paredes e os lençóis enrugados da que foi a nossa cama de aluguer, durante três anos.

Tudo se resume ao mesmo. Saudade. A palavra portuguesa que não se traduz.

“Fico contente, gosto do sítio”

“Vendemos praticamente só a turistas, por isso, como é perto, sempre é melhor para eles encontrarem”. Rosa Gonçalves é uma das vendedores do Bolhão que aplaudem a mudança provisória para o quarteirão da antiga Casa Forte, enquanto decorrerem as obras de reabilitação do histórico mercado portuense. A maior parte dos comerciantes partilham da mesma opinião, saudando a decisão, anunciada oficialmente pelo presidente da Câmara do Porto, Rui Moreira, na Assembleia Municipal.

O autarca disse que, “com toda a certeza”, as bancas iriam para o quarteirão da antiga Casa Forte. Chegaram a ser colocadas outras hipóteses, como o Silo Auto, mas a solução que mais agradava ao Município era mesmo o referido quarteirão. “Estamos a finalizar as negociações com o Fundo Millenium [que está a reabilitar o espaço]”, adiantou Rui Moreira aos deputados municipais.

“Já falaram de tantos sítios… Se realmente for esse, fico contente porque gosto do sítio”, referiu Marília Brandão. Vendedora há mais de 65 anos, lamenta o estado a que chegou o Bolhão. “Está tudo abandalhado. Antigamente éramos 300 trabalhadores e agora nem 100 cá estão, observou.

 

Muita expectativa

Muitos dos que permanecem pertencem a famílias que sempre fizeram vida no mercado. “Começou com a minha trisavó, seguiram-se a minha bisavó, avó e agora estou cá eu”, resumiu Maria Ferreira, proprietária de uma banca. A comerciante recordou que o Bolhão é parte da vida dela: foi para lá desde bebé, conheceu e namorou com o marido lá e educou os filhos por ali. O Bolhão é como se fosse uma segunda casa. Muitas vezes foi mesmo a primeira. Entre os comerciantes, reina a expetativa sobre o resultado da operação de requalificação do emblemático mercado. Só pedem que a essência do Bolhão não seja desvirtuada nem desapareça. “Estou contente porque quero que fique bonito. Espero que ao alterar, alterem bem”, referiu um deles.

 

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Atual Mercado do Bolhão, no Porto.

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Projeto do futuro Mercado do Bolhão.

 

Lello vai abrir museu até ao final do ano

 

O antigo negócio “Armazéns do Castelo”, na Rua das Carmelitas, foram comprados pela Livraria Lello, que ali pretende desenvolver um projeto independente e com identidade própria. A inauguração já foi feita, com a animação de personagens da música portuguesa e estrangeira e estátuas vivas.

“Apenas com produtos portugueses, nos Armazéns do Castelo vai ser possível encontrar livros, artigos 100%  naturais, brinquedos artesanais, merchandising da Livraria Lello em exclusivo, e muito mais”, disseram os promotores, em comunicado emitido ontem.

A loja está em funcionamento atualmente, das 10 às 19 horas, todos os dias com exceção do domingo. A entrada será livre e não sujeita à compra do bilhete de entrada.

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Lello terá um museu?livraria-lello-e-irmão-wikimedia-11

A fachada da emblemática Livraria Lello começou a ser renovada no fim do passado mês. Até ao final de outubro, os escritórios da livraria, que atualmente se situam na cave, serão transferidos para os Armazéns do Castelo, entretanto comprados para acolher o projeto acima mencionado. Na cave vai nascer um museu até ao final do ano. O espaço terá visitas noturnas.

As novidades foram avançadas por Pedro Pinto, administrador da Lello, pouco antes da inauguração dos renovados Armazéns. “No ano passado, passaram pela Lello cerca de 1,2 milhões de visitantes. Com esta nova aposta, espera-se que o número cresça para dois milhões”, acrescentou Pedro Pinto.

Nos Armazéns nasce um projeto independente e complementar. O espaço possui todos os detalhes originais – mesas, manequins, escadas, têxteis e até manteve um funcionário. “O senhor Paulo trabalha aqui desde o tempo em que os Armazéns do Castelo só vendiam cortinados e tapetes, há 31 anos”, contou Pedro Pinto.

Para além de um piano, existe um dj de serviço- uma coluna em formato de mala – e uma cabine para fotografias. No auditório, serão realizadas tertúlias, debates, espetáculos, concertos e lançamentos de livros.

Casa de filósofo apaixona lisboetas

A casa com o número 126 da Travessa da Nova Sintra, no Bonfim, no Porto, tem agora novos proprietários. Não é uma casa qualquer: ali nasceu, há 110 anos, o filósofo e poeta Agostinho da Silva. Dulce Cruz, designer, e André da Loba, ilustrador, casal lisboeta que se enamorou pelo edifício, pretende reabilitá-lo e abrir uma parte ao público. Dulce e André pretendem “manter a estrutura do prédio, alterando o mínimo possível”.

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André da Loba e Dulce Cruz resolveram deixar Lisboa para viver no Porto.

Ambos ansiavam comprar uma habitação em conjunto e foi durante “uma pesquisa à procura da casa ideal” que ficaram de olho nesta. “Pelas fotos da agência imobiliária não fiquei muito fascinada, mas disse ao André para fazermos uma visita. Quando cá chegamos, percebemos a beleza da casa e da sua vista para o rio e para os campos, mesmo sendo no centro do Porto”, confessou Dulce. “É um silêncio tão agradável. E basta andarmos duas ruas, para chegarmos ao centro. É ótimo”, acrescentou.

A casa estava à venda desde 2010. Chegaram a ser levantadas hipóteses, como a transformação do edifício num museu ou a entrega da casa à Câmara, por ter sido colocada uma placa em memória de Agostinho da Silva. Nada disso se confirmou. O edifício era privado e foi vendido, por cerca de 100 mil euros.

 

Projetos futuros para a Casa

Dulce e André querem que a casa tenha alguma divisão aberta ao público, nomeadamente a cave. Pretendem restaurá-la e prepará-la para receber conferências, pequenos concertos ou outros eventos culturais e lúdicos. “A ideia é termos a nossa área privada, o nosso espaço, mas também deixar que a casa, onde nasceu Agostinho da Silva, possa estar aberta a quem estiver interessado em conhecê-la”, explicou André da Loba. Para além da cave, pretendem integrar no edifício uma biblioteca e no jardim um pequeno palco e um mural, se possível. Mas mantendo o espaço florido. E também estão dispostos a receber a associação “Casa Agostinho da Silva”, se os associados assim pretenderem, visto que o grupo costuma encontrar-se ali em datas específicas.

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O edifício estava preparado para três habitações, mas no futuro será só uma.

Desde a sua construção, o prédio estava preparado para ter três habitações individuais; no entanto, com a reabilitação, todo o imóvel será transformado num T3. Dentro de um ano, a casa estará pronta, com o aproveitamento dos materiais existentes, sem perder a estrutura inicial. Dulce Cruz prefere “ter uns fios à mostra, do que ter que alterar a forma original”.

Um novo olhar: covardia ou necessidade?

É da sabedoria de todos que todas as crianças têm direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, à cultura, à dignidade… à liberdade. Nota: Nem sempre a realidade segue por essa linha. A UNICEF, inclusive, tenta que os direitos das crianças prevaleçam e que todas as pessoas os defendam. Essas e muitas outras associações, fundações ou organizações lutam contra a maré que tende a subir.

Bebés, crianças e jovens abandonados em igrejas, casas ou escolas. É apenas uma parte. Nem sempre as crianças poderão ter mães tão presentes quanto desejariam. Não sou mãe para poder ter todas as visões no que toca a este assunto, mas isso não me impede de não entender o que leva uma mãe ou um pai a abandonar um filho, abandonar simplesmente. Covardia? Necessidade? Não ter em conta os cuidados que a criança precisará nem tão pouco a preocupação das repercussões que isso irá trazer para a sua vida. O que ela irá responder quando perguntarem “a tua mãe vem buscar-te?” ou  quem lhe irá preparar o lanche. É como lhes fosse destinado um rumo a preto e branco e a todas as outras crianças a caixa completa de lápis de cor. A luta de conseguir associar tudo isso a algo menos bom e acreditar que a culpa não é deles. A capacidade que necessitam para não cair em caminhos estreitos. Vão ser crianças do mundo, quando deviam fazer parte do mundo de quem as trouxe. Não é esse o sentido?

Existem famílias com graves dificuldades, mães solteiras, negligências, pais sem qualquer suporte ou, muitas vezes, esperam que os filhos tenham um melhor colo noutra pessoa. Desculpas mais ou menos fundamentadas nunca irão substituir a tristeza do drama de saber que fomos deixados. A situação não é nova. O assunto enche notícias nos jornais. “Criança com três anos foi abandonada…”, “…deixado sozinho no apartamento” até às mais graves “… criança cai de apartamento de sete andares”.

A sociedade que se preocupa com a vida, que investe na educação, em melhores sistemas de saúde e em estudos superiores, tem também de prevenir o abandono das crianças.

Quer dizer, é lançar os indefesos à sorte do destino.

 

A enfermidade dos “inte”

Longe vão os dias em que apenas um na aldeia tinha um curso superior. Hoje, ter um curso superior é como ter uma conta no instagram, todos têm. Uns sempre lutaram para tal, outros esperam entrar num curso qualquer com média que pouco ultrapassa o dez. O que quero realmente dizer é que, por mais que nos digam que não, ter um curso superior ajuda-nos no futuro. Pelo menos quero pensar assim.

Contudo, os dias não ficam mais coloridos, as oportunidades não saltam como as tampas e nem somos assim tão mais inteligentes relativamente ao secundário. “Licenciatura é um grau académico recebido por um indivíduo que finaliza os seus estudos numa instituição de ensino superior, normalmente numa faculdade ou universidade.” Ah, bom… Não passa de um tópico a adicionar ao currículo se não existir a paciência necessária e uma pitada de sorte. Digo paciência porque, em Portugal, lutar por um sonho é uma luta contra a nossa paciência. Fomos “quase educados” a saber dar resposta à pergunta “o que queres ser quando fores grande?”, quando nunca nos disseram “olha, vai ser difícil”. No entanto, quando exclamavam “doutor” surgia de imediato “uau, este é esperto”.

No meio destas palavras dispersadas, a dois dias de “finalizar os meus estudos numa instituição de ensino superior”, o que me fez escrever sobre o ciclo que tendo a terminar foi a despedida de uma amiga minha. É mais velha que eu e já tem preocupações que nunca quero ter. Mas eventualmente a realidade chega. Afinal ela tem 26 anos e eu 20, não estamos assim tão distantes. A doença dos “inte” atormenta qualquer jovem que pensa que a vida será sempre um dilema sobre qual esplanada escolher. Essa minha amiga não tem nenhum curso superior, mas apesar de eu não ser ninguém para o afirmar, tem um dom para a fotografia incrível. O que eu já não acho incrível é a necessidade de ter que sair do país, ultrapassar fronteiras. Inglaterra. Os laços criados cá eram tão apertados, os risos ocupavam as horas. Agora os únicos laços que existem são aqueles que apertamos ao fechar a mala. É triste. Como todas as despedidas são. Então, assistir de perto fez-me pensar se todo o percurso irá valer a pena… E um jovem nos seus “inte” nunca quer ter que pensar.

Não deixem os talentos fugir.